UTOPIAS DA ALTERIDADE NAS LITERATURAS PORTUGUESA E BRASILEIRA

 

Arenas Fernando - Univ. of Minnesota

 

 

Este estudo aponta para uma reconfiguração do pensamento utópico em algumas expressões das literaturas portuguesa e brasileira. Os escritores a serem considerados aqui têm-se comprometido com diversas causas utópicas e/ou emancipatórias como a revolução marxista, liberação feminina ou a revolução sexual, entre outras.  Porém, dada uma série de mudanças radicais a nível mundial do ponto de vista histórico, cultural e epidemiológico nas últimas décadas, as obras dos escritores em questão apresentam modalidades ético-políticas alternativas. Caio Fernando Abreu, Maria Isabel Barreno, Vergílio Ferreira, Clarice Lispector, Maria Gabriela Llansol e José Saramago privilegiam a relação com "o outro" que assume a forma de família, ser amado, comunidade (local, nacional e/ou global) ou o/a leitor/a.  Eles/Elas sugerem que apesar do desgaste das utopias que têm governado o imaginário humano no contexto nacional e transnacional na era contemporânea, há certos aspectos do pensamento utópico que ainda são necessários para a sobrevivência da humanidade. Por conseguinte, os vários autores estudados aqui propõem novas modalidades de subjetividades e comunidades baseadas no compromisso ético e na solidariedade para com "o outro" para a construção duma existência mais "humana".  Aqui observa-se uma viragem das questões nacionais para questões pós-nacionais onde está em causa o destino da "cultura ocidental" ou da própria humanidade.  Esta reconfiguração epistemológica humanística e pós-nacional ocupa um papel fundamental nos autores aqui estudados.  Em vez de focalizar em cada escritor/a individualmente, este trabalho visa estabelecer um diálogo a partir de vários pontos de vista relativamente a preocupações culturais e políticas comuns.

          Após Thomas More, a utopia tem funcionado como uma projeção de tempo apontando para um futuro a ser alcançado, assim como uma projeção de espaço, postulando um lugar melhor que está além.  Ambas as projeções, para um futuro e para um espaço outros têm caracterizado as várias manifestações do pensamento utópico desde a Renascença até ao século XIX. A ascensão da utopia como gênero literário e como construção cultural distinta pode ser considerada como parte integral de diversos processos e histórias que compreendem a passagem à modernidade, tal como a mudança de uma visão religiosa do mundo a uma visão secular, a expansão marítimo-colonial europeia, a evolução do mercantilismo, a Reforma e a consolidação paulatina da fé na razão e na ciência (esta última tornando-se completamente entesourada durante o Iluminismo). Todos estes factores indicam, entre outros, o nascimento de um novo mundo cognitivo e intelectual (Hall 8), o qual provê, ao mesmo tempo, uma abertura epistemológica a imagens radicalmente criativas de novos mundos e críticas sistemáticas de sociedades que eram ainda governadas, em variados aspectos, por valores e certezas da Idade Média.

          As definições quinhentistas do neologismo "utopia" têm-se multiplicado ao longo da história ocidental e, nos seus cinco séculos de existência, uma constelação complexa de significados tem sido construída ao seu redor. Sob a rubrica de "utopia"encontramos uma profusão de registros discursivos: um produto intelectual, uma forma de retórica, um ideal abstrato, uma forma de conhecimento, um argumento filosófico de peso, uma fantástica estória de aventura, um projeto de uma sociedade ou cidade ideal, o trabalho de teóricos sociais ou uma forma literária posta ao serviço da crítica e análise sociais. Em termos gerais, a utopia apresenta-se como um relato da situação contemporânea da humanidade sugerindo ao mesmo tempo possíveis saídas (Kumar). Por outro lado, a utopia pode também ter contornos sócio-políticos e culturais claros, acreditando no aperfeiçoamento da humanidade, da natureza e na validade de meios institucionais e organizados para a construção de sociedades ordenadas e estáveis (Davis). Boaventura de Sousa Santos define utopia como a exploração, através da imaginação, de "novos modos de possibilidades humanas e estilos de vontade" (479), assim como o desejo de criar mundos melhores pelos quais vale a pena lutar e os quais a humanidade tem direito de possuir. As três definições compartilham uma visão comum de um presente que pode e deve ser melhorado, mesmo hoje, numa era onde verificamos o esgotamento de várias utopias têm governado a modernidade.

                      As definições de utopia que têm perdurado ao longo da história estão ligadas principalmente a "grandes imaginários" de mundos inteiramente novos que têm expressão literária, ao ponto de podermos falar de um género prolixo de literatura utópica. Contudo, a definição de utopia que será usada aqui refere-se a "pequenos imaginários utópicos" marcados por um sentimento de ânsiae esperança. Mas, o que desejamos salientar para além da própria ânsia e esperança é a noção da necessidade urgente de mudar a natureza das relações humanas face aos desastres totalitários que tiveram lugar no século XX (por exemplo nos casos da Alemanha hitleriana, a União Soviética estaliniana e o Camboja de Pol Pot), ou frente aos limites ambientais do planeta ou àqueles aspectos mais nocivos da globalização e do seu corolário, a economia de mercado. O que será ilustrado neste trabalho a partir da produção romanesca de escritores portugueses e brasileiros são os "pequenos imaginários utópicos" que têm como base o substrato ético da relação com "o   outro" na prática da vida quotidiana.

          A despeito da desilusão ou ceticismo pós-modernos com relação às utopias a nível global, críticos e estudiosos (Holloway, Kumar, Manuel e Manuel, Ricoeur, Santos, Siebers, Simecka) unanimemente concordam na sua contínua necessidade e não no seu abandono. O pensamento utópico tem atraído e continua a atrair todas as disciplinas intelectuais e expressões artísticas. Romancistas e intelectuais tanto de nações industrializadas como de nações em desenvolvimento continuam a pesquisar e advogar por novas e melhores possibilidades sociais. José Saramago, por exemplo, é inflexível em afirmar em incontáveis entrevistas, antes e depois de ter ganho o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, e nos seus diários (Cadernos de Lanzarote), que enquanto houver um défice de justiça social no mundo, não deverá extinguir-se a fé em utopias ou no aperfeiçoamento da sociedade. Boaventura de Sousa Santos, por outro lado, enfatiza a exaustão do paradigma da modernidade e da consequente necessidade da invenção de um "novo senso comum" adequado ao que ele chama de "princípio comunitário", baseado em idéias de solidariedade, participação, prazer, diálogos inter-culturais e nas lutas emancipatórias de grupos sociais oprimidos, entre outros. Jurandir Freire Costa, por sua vez,  exige um esforço para a concepção de novas formas de relações familiares; novos modos de relações afetivas, amorosas e sexuais; novos estilos de sociabilidade, novas atitudes em relação aos progressos científicos e tecnológicos, entre outros, a fim de construir uma vida mais ética que possa também restituir a dignidade moral do outro, numa sociedade, tal como o Brasil, que sofre de violência crónica (mesmo sem estado de guerra). Freire Costa, Santos e Saramago, todos, coincidem em afirmar a necessidade contínua de utopias que possam oferecer esperança na condição humana.1

          No final do século XX, a tendência histórica para o pensamento e a esperança utópicas passou por mudanças significativas. O esgotamento ou enfraquecimento das grandes utopias que marcaram a modernidade, e a resultante incredulidade face aos modos utópicos de pensar a sociedade ou o mundo em geral, deram lugar a relatos menores ou micro-narrativas mais modestas mas não menos inspiradas utopicamente ou preocupadas com o bem-estar e destino da humanidade. Desta forma, sob um ponto de vista filosófico privilegiam-se as noções de "alteridade", "diferença" ou de relacionamento ético com o outro (Levinas, Lyotard, Derrida e outros). Em termos políticos, maior ênfase é dada a modos micrológicos de teorização da sociedade e mudança social em vez de contemplar a transformação, em larga escala,  das macroestruturas sociais. Do ponto de vista cultural, temos o surgimento no"discurso da esfera pública" (Jameson) de uma grande variedade de grupos organizados em base a diversos aspectos da subjetividade humana que têm sido historicamente negligenciados ou marginalizados tais como o gênero, a sexualidade, a raça e a etnia, entre outros, e isto tem repercussões importantes em todas as esferas da sociedade (economicamente, politicamente, etc). Estas mudanças epistemológicas têm tido efeitos decisivos no âmbito da literatura contemporânea, assim como em outras expressões artísticas. Aliás, podemos argumentar que há de facto uma relação simbiótica entre estas mudanças e o campo cultural e artístico.

          Os escritores contemplados aqui, apesar de não estarem interessados em desenvolver anteprojetos ou estabelecer paradigmas para uma nova sociedade, exploram os parâmetros ontológicos e éticos subjacentes à relação com o "outro", na forma de um ser amado, família, comunidade ou o "leitor/a".  Os parâmetros deste relacionamento revelam um parentesco directo com a "antropologia filosófica" de Bakhtin onde ele avança seus conceitos do ser e "dialogismo" atravês dos quais o outro assume um papel existencial chave. Para a maioria dos autores estudados aqui, o relacionamento com o outro não aparece só como microcosmo de uma dada sociedade nacional, mas também da humanidade em geral, e torna-se a estrutura para a construção de uma vida individual e colectiva mais "decente". Por vezes, este relacionamento acontece em "situações-limite" exemplificadas pelo completo colapso da sociedade tal como a conhecemos, como no romance apocalíptico de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira (1995), no qual os seres humanos são obrigados a procurar novas maneiras de se relacionarem com o outro a fim de sobreviverem à catástrofe e consequentemente construirem uma vida melhor e renovada.  Em outros casos, como em várias obras de Caio Fernando Abreu (no conto "Depois de agosto," da coletânea Ovelhas negras), Clarice Lispector (A hora da estrela ou Um sopro de vida) ou Vergílio Ferreira (Para sempre ou Em nome da terra), observamos o sujeito-narrador adaptando-se à idéia da morte devido a enfermidades (AIDS, câncer) ou a idade avançada, respectivamente. Neste contexto, o vínculo emocional e mesmo físico com o outro torna-se uma força decisiva na busca de uma existência significativa e frutífera no final da vida, assim como para uma maior aceitação da inevitabilidade da morte. Maria Isabel Barreno, por outro lado, sugere que os fundamentos do compromisso e justiça social ou da democracia, longe de se basearem em conceitos abstractos, encontram-se inbricados, antes de mais nada, na interacção diária com o outro no contexto da família, do local de trabalho, das amizades, da vida anônima da cidade, etc (ver obras como Crónica do tempo ou Os sensos incomuns).  Para Maria Gabriela Llansol, por outro lado, o texto literário torna-se um espaço transhistórico onde "comunidades de rebeldes" se formam, unidas pelas mesmas preocupações culturais e éticas.

          A filosofia ética de Emmanuel Levinas ressoa com as dominantes políticas e culturais contemporâneas que nos interessam aqui. A definição do ser de Levinas é baseada numa relação intersubjetiva estabelecida por uma obrigação ética face ao outro. Esta modalidade ética de subjetividade produz uma noção de entre nous onde ontologia é definida num sentido dialógico. Ética torna-se o relacionamento fundamental entre os sujeitos através do qual ser é colocar-se à disposição do outro. Desta forma, o encontro com o outro implica tornar-se responsável pelo outro. O "outro" em Levinas é definido de maneira fluida, abrangendo a noção bíblica do outro como "vizinho" (autrui em francês, ou outrem em português), a "outra pessoa" (l'autre), assim como Deus. As definições levinasianas de alteridade estão inevitavelmente carregadas de ambiguidade, combinando o religioso com o secular, o humano com o divino. Como Derrida ressalta, Levinas permanece dentro "do jogo da diferença e analogia entre a face de Deus e a face do meu vizinho, entre o infinitamente outro em Deus e o infinitamente outro em outro ser humano"(The Gift of Death 83-84 ou Donner la mort). Derek Attridge, por sua parte, faz uma ligação entre alteridade e uma dimensão diferente da estritamente antropomórfica ou sociológica comumente associada ao conceito de "o outro" , o qual é também fundamental à nossa discussão sobre literatura e ética. Attridge liga "alteridade" a actos de criatividade e invenção.  Estes actos seriam semelhantes às experiências de escrever e ler, ecoando aqui a visão derridiana de alteridade como aquela que é produzida através do ato da escrita. Segundo Attridge, o outro é também "aquele que acena ou comanda das margens de minha esfera mental quando me dedico ao acto criativo" (23). Este acto criativo pode ser representado pelos actos da escrita e da leitura. A emergência  do outro no acto da escrita assim como no da leitura seria o resultado da sua interacção com a singularidade do "outro" que se manifesta no processo criativo.

          O privilegiar do "outro" como horizonte ontológico primário, ético e político na literatura e na filosofia aqui discutidas, indica o seu surgimento como fronteira utópica de crucial importância dentro da cultura global contemporânea. Podemos descrever este fenômeno como a "utopia da alteridade" ou a "utopia do outro". Dada a exaustão, o enfraquecimento ou a relativização das utopias do marxismo, do cristianismo ou dos nacionalismos, entre outros, resta-nos a humanidade como fundamento ontológico primário de fé e esperança. De tal maneira, a utopia da alteridade situa-se entre a condição de ser um princípio absoluto e a condição de se encontrar radicalmente fragmentado em uma miríade de pequenas narrativas e instâncias relacionadas que descrevem e/ou governam a condição humana contemporânea.  O outro — delineado pelos escritores que são objeto deste estudo — apresenta uma ampla constelação de significados desde uma variedade de seres individualizados ou colectivos à relações incidentais incorporadas nas figuras do amante, da família, do amigo, do colega de trabalho, da comunidade, da nação, da humanidade, do "leitor/a" ou do ato da escrita ou da leitura.  Às vezes, o outro, em certas personagens de José Saramago ou Clarice Lispector pode aparecer como "o outro oprimido" ou "o subalterno", tal como é definido pela teoria pós-colonial relativamente à noção de classe (ver os casos de Baltasar e Blimunda no Memorial do convento ou o caso de Macabea em A hora da estrela. Nos casos de Caio Fernando Abreu e Maria Isabel Barreno, o outro tende a aparecer na forma de amantes, família, amizades e/ou colegas de trabalho. Nos casos de Clarice Lispector, Vergílio Ferreira e Maria Gabriela Llansol, a questão da alteridade — de diversas maneiras — torna-se a peça central de uma reflexão contínua sobre o estatuto ontológico da própria literatura, sobre os actos de escrever e ler e sobre o relacionamento simbiótico entre o viver e o escrever.  No caso específico de Llansol, há a busca da liberdade no contexto da experiência mística a qual é parte integral da experiência da escrita e, por extensão, do relacionamento com o outro.

          Os últimos romances de Clarice Lispector (A hora da estrela e Um sopro de vida) e Vergílio Ferreira (Para sempre e Em nome da terra), por exemplo, foram escritos com um sentido de urgência no final da vida.2 Estes textos exemplificam quanto circunstâncias existenciais do autor se tornam mais transparentes no processo criativo. Todos são tentativas de superar as contingências da vida e de fazer a etapa final da existência mais vivível. O relacionamento simbiótico entre vida e escrita é particularmente palpável nas obras de Ferreira e Lispector, assim como em Maria Gabriela Llansol e Caio Fernando Abreu. No entanto, este relacionamento revela-se mais urgente nos casos de Lispector, Ferreira e Abreu devido a uma aguda consciência de viver os últimos anos de vida em circunstâncias ditadas pelo câncer no caso de Lispector, idade avançada no caso de Ferreira e pela AIDS no caso de Abreu.

          Apesar das preocupações de Maria Gabriela Llansol relativamente à subjetividade e à representação literária coincidirem com as deste grupo de escritores/as, a sua visão da subjetividade aproxima-a muito mais de Lispector e Ferreira. As reflexões de Llansol sobre o espaço literário, o acto de escrever, ou sobre o relacionamento entre o sujeito e "o outro" e seus efeitos no acto de criação literária, levam-na, aliás, a um lugar distinto e quase completamente novo com relação à Ferreira ou Lispector. A produção literária de Llansol é essencialmente uma ficção auto-consciente de ficções que fluem sem seguir qualquer progressão teleológica ou sem um interlocutor pré-determinado. Os seus textos são construídos a partir de fragmentos e variações que reflectem de certa forma estruturas musicais clássicas. A verdade é construída a nível dialógico e o mundo é definido como prioritariamente relacional. As vidas humanas, de acordo com Llansol, são governadas por forças libidinais e afectivas (muito à veia deleuziana) que alcança seu ponto mais alto no encontro face à face com o que ela denomina de "o Amante" (poderíamos interpretar este ser ou entidade como o ser humano amado ou Deus). O conceito de alteridade de Llansol, no entanto, é profundamente heterogêneo, simultaneamente abrangendo não só uma base material e histórica concreta, mas também um substrato espiritual, afetivo e carnal. A combinação destes vários elementos nos momentos de emergência da alteridade produz um efeito de abstração que pode aproximar a definição de alteridade de Llansol à de Levinas. Contudo, a atenção dada por Llansol a problemas de sexo-género, o seu pendor por um misticismo pan-religioso (ao contrário de estar circunstrita a um sistema teológico único como no caso do judaísmo em Levinas) e as problemáticas concretas culturais e históricas que subjacem à escrita literária e pensamento filosófico de Llansol, distanciam-na de muitas das premissas da filosofia ética de Levinas.

Para Maria Gabriela Llansol, o relacionamento isomórfico entre escrita/ textualidade/vida é radicalizado.  Mesmo se em seus textos não nos confrontamos com o horizonte ameaçador da morte como no caso dos últimos livros de Clarice Lispector, Vergílio Ferreira e Caio Fernando Abreu, na escrita de Llansol há uma conscientização aguda de estar afirmando a vida tanto quanto a liberdade de consciência. Podemos argumentar, portanto, que o texto de Llansol constitui, em si mesmo, um espaço onde uma utopia singular é construída. O mundo delineado pelo texto de Llansol avança para além das convenções estabelecidas de tempo, espaço, línguagem, sexo-género e da literatura em si mesma. É uma tentativa ficcional de criar um mundo completamente novo.  Llansol deseja criar um espaço para a evolução do possível, e acima de tudo, do imprevisível (Lisboaleipzig 1 92). À primeira vista, o projeto literário de Llansol não poderia estar mais afastado do de seu contemporâneo José Saramago, particularmente do ponto de vista estrutural e estilístico. Todavia, observamos nos dois autores um compromisso inabalável frente a questões relacionadas com a livre vontade ou a liberdade da consciência, mais concretamente, no que diz respeito à fé religiosa na história da Cristandade.

          No que diz respeito à obra de Saramago poderíamos dizer que durante os anos noventa, há uma mudança significativa no foco temático, que passa de um contexto nacional para um horizonte pós-nacional onde observamos existências marginalizadas subitamente adquirem contornos humanos que desafiam especificidades nacionais. Em Ensaio sobre a cegueira, um romance perturbador no qual a sociedade humana é subitamente acometida por uma epidemia de cegueira,  cada pessoa é misteriosamente "contaminada" a um ponto onde a sociedade desmorona material, institucional e emocionalmente. Tendo em vista estas circunstâncias extremas, os protagonistas tornam-se no mais absolutamente outro de si próprios. Isto leva-os ou à auto-destruição ou a uma radical transformação onde é necessário forjar elos de profunda solidariedade com seus/suas companheiro/as para a sobrevivência.  O romance de Saramago surge como uma alegoria devastadora da condição humana na passagem do milênio, onde têm surgido vários cenários apocalípticos localizados em lugares onde a solidariedade humana desapareceu quase completamente ou onde a razão deixou de ser um factor determinante nas relações humanas. Nas suas conversas com Carlos Reis (Diálogos com José Saramago 150), Saramago fala da necessidade de responsabilidades humanas e não somente de direitos humanos. Ele refere-se aqui às obrigações perante o outro e à necessidade de solidariedade entre os seres humanos em geral. A angústia que permeia o romance Ensaio sobre a cegueira origina-se da percepção de que a crueldade da humanidade para com a humanidade é ainda desmedida no limiar do século XXI. 

          A visão de Saramago de alteridade e de responsabilidade com respeito ao outro revela contornos históricos e materiais bem específicos que o distanciam consideravelmente das definições de alteridade desenvolvidas por Levinas e mesmo por Maria Gabriela Llansol. O compromisso de Saramago com o social aproxima-o mais do trabalho de Isabel Barreno, e em menor escala, ao de Caio Fernando Abreu (a atenção dada por este último a estilos de vida e sexualidades alternativas ou a uma cultura pop global, são facetas ausentes na obra de Saramago). No entanto, praxe literária de Saramago, Barreno e Abreu representam em termos mais palpáveis o "real" histórico e as ocorrências do dia-a-dia onde personagens fictícias acabam por encontrar-se. Apesar da atenção dada a assuntos existenciais, em intensidades diversas, esta atenção nunca é desligada de temas-chave relacionados com classe (Saramago), género (Barreno e Saramago) ou sexualidade (Abreu e, em menor escala, Barreno). Por outro lado, as obras de Clarice Lispector, Vergílio Ferreira e Maria Gabriela Llansol revelam uma propensão maior para a abstração filosófica (principalmente no caso de Llansol), onde eventos do dia-a-dia passam por um profundo processo transfigurador revelando o substrato metafísico do "estar no mundo" do sujeito.  Todavia, estes tres autores estão atentos à base ideológica das correntes históricas no mundo Ocidental (Ferreira, Llansol e, mais implicitamente, Lispector), assim como a várias facetas da identidade humana tal como género (Lispector e Llansol), sexualidade (Llansol e, em menor escala, Lispector) e classe social (Lispector, em grau limitado). Todos estes autores coincidem nas suas definições de subjetividade como algo inseparável do relacionamento com o outro. Este relacionamento torna-se a razão da escrita, ao mesmo tempo que o acto de escrever proporciona uma razão para viver. A literatura produzida por este grupo heterogêneo de escritores dramatiza a noção de que os nossos destinos coletivo e individual estão inextricavelmente ligados a um sentido de responsabilidade ética com relação ao outro. Esta noção constitui uma última fronteira utópica assim como um supremo arauto de esperança.



1 There has been a recent upsurge of interest in utopian literature and utopian thought which reveals a continued desire to think of new cultural horizons and new ways of envisioning better societies at the turn of the millenium and after the collapse the Communism, as well as in the face of increased dissatisfaction with the market economy as historical finality. While the New York Times (Feb.5, 2000) carried a long article announcing the publication of two major books on the subject matter (The Utopia Reader and The Faber Book of Utopias), Magazine Littéraire (June 2000) dedicated an entire number to the renaissance of utopia, featuring the views of writers, philosophers, economists, cultural critics, art critics, and others, who all coincide in the belief in the continued need for utopias but on a smaller and more human scale.

2 The inclusion of Brazilian writer Clarice Lispector within a group of writers who have actively and persuasively engaged with the question of utopias may surprise certain readers and critics of her work given that this question is not explictily treated in her fictional production. However, since one of the primary arguments developed here is the emergence of the "utopia of the other" as an ultimate cultural and ontological frontier in contemporary times and since Lispector devotes much attention to the relationship with the other, in the form of a reader for instance, where this relationship is intrinsic to acts of writing/reading, and since the act of writing in her final years acquires a vital importance related to questions of life and death, Clarice Lispector has indeed much to contribute to this discussion and her inclusion within this heterogeneous group of writers is most pertinent and valuable.